Ela passou por mim

Ela passou por mim. “I eat plants for a living”, dizia a camiseta dela. Gostava de andar sozinha de skate nos fins de tarde. Tinha seus amigos, companheiros embaixo do céu laranja; chegava com eles mas os orbitava distante, não fazia parte daquilo. Também não buscava ninguém, como poderia? Já tinha em si tudo o que precisava.

Eu buscava, perdido no mar. Queria que segurasse minha mão quando caía. Quando fosse frio, agarrasse minha camiseta e se cobrisse de mim. Queria que fosse ela do outro lado do telefone de madrugada. Queria voltar sozinho à noite, depois de deixá-la em casa. Mas dos seus olhos, quem era eu?

Ela passou por mim. A suave brisa rodopiava papéis e folhas pela calçada; seus amigos se foram, um após o outro. Eu fiquei, desajeitado e inseguro, mas queria ter ido embora. Tentei disfarçar, fingi que a ignorava; que medo de não parecer normal. É claro que não funcionou, ela encarava de longe. Qualquer chance morreu naquela olhar.

Houve um beijo então, acho que logo depois. Não sei como chegamos a ele, só sei que aconteceu quando tentamos conversar, desajeitados e inseguros; não era resultado da minha coragem, foi apenas o passo evidente quando não encontramos mais o que dizer. Houve um beijo então, e eu a deixei ir embora, sem falar nada.

Sei que deixou algo em mim. No coração, eu acho, algo que não deixarei escapar.