As portas que fiquem fechadas

— Que mais eu coloco na história? Tô achando que falta alguma coisa.

— Bota uma bailarina. De preferência a personagem principal ou uma amiga dela.

— Só porque você já fez ballet.

— Não, porque quem nunca fez ballet gosta das nossas histórias.

— Que mais sugere?

— Tem que ter sexo. Sexo com arranhões nas costas, que termina com cheiro de amor e saudade — ela riu enquanto falava — e não ouse separar os dois!

— Separar o casal?

Marina revirou os olhos — separar sexo de amor, tem que fingir que é tudo a mesma coisa — Cássio a encarava, esperando mais, mas ela não tinha. Na verdade tinha, mas não deveria — Olha, tem alguns outros clichês que pode usar, mas é tudo tabu, e se eu te falar você não dura duas semanas. Eu te conheço.

— Tá certo, mas tabu não faz uma boa história? Quero falar do que não se deve, quero lembrar do feio, quero filosofia, horror e conflito. Quero desafiar o leitor.

— Não dá pra ter tudo, querido. A vida já desafia bastante as pessoas, dá algo fácil pra elas.

E Cássio não teve tudo. Passou a tarde debruçado sobre o manuscrito, se preparando para entregá-lo à noitinha. Quando a hora chegou, Marina viu a chave em uma de suas mãos. Ele deu de ombros, sem graça, pois aquela chave tinha um propósito especial; consagrava sua rendição. Não abriria portas ou cofres, não abriria cadeados, mas era com ela que garantia minha entrada, as portas que fiquem fechadas.

A charada na porta do quarto

Viviam num pequeno bairro da parte nova da cidade, ainda sem muitos vizinhos. Espaços desocupados garantiam distância suficiente e ofereciam o silêncio tão almejado, quase excessivo. Era apenas ela e o pai dividindo aquela grande casa, mas conviviam bem apesar de se verem pouco. Seu pai sempre parava na porta de seu quarto quando estava de saída, e batia, insistente, persistente, até sua filha ceder e lhe dar alguma forma de resposta. Deixava então uma mensagem num papel qualquer; às vezes eram adivinhas ou charadas até que bem elaboradas, outras eram apenas brincadeiras de que só ele ria; e como ria.

Dessa vez porém, ela estava exausta e se recusou a atender; claro que as batidas continuaram, determinadas a lhe arrancar uma resposta. Reclamou, cansada e irritada, arremessou um travesseiro na porta, que bateu num som opaco e discreto, mas ele não desistiria. Arremessou de novo, pegando a primeira coisa que sua mão alcançou no criado mudo, gritando para seu pai parar. Ele respondeu logo em seguida, soando estranhamente confuso, admitindo apenas que estava ocupado no momento; sua voz vinha do outro lado da casa, e não detrás da porta.

Ela ainda lembra do arrepio que correu pela sua espinha e se alojou no estômago vazio, do coração pulsando forte e resoluto quando se deu conta do que estava acontecendo. Por baixo da porta, um grande envelope amarelo havia sido empurrado, deslizando pelo assoalho polido até o pé da cama. Ela não ousou abrir a carta que estava ali dentro.