Num canto de restaurante

O velho vinha uma vez por semana, sentava naquele canto, distribuía suas coisas na mesa, toda vez a mesma coisa. Chegava cedo, almoçava devagar, ia embora logo depois. Cumprimentava instintivamente, mas não reduzia a cortesia por isso. Algumas vezes anotava num caderno, concentrado, outras vezes não. Nunca soube se vinha andando ou só estacionava longe, mas virou parte do cenário, como o som da carne na chapa, do espremedor de laranja, dos talheres nos pratos, das conversas e dos copos, dos carros apressados lá fora.

Então, numa semana qualquer, não veio; nem na semana seguinte, e na semana depois daquela. Ninguém perguntou por ele; por falta de interesse ou porque não havia para quem perguntar. Eu também não perguntei, porque já sabia. O velho que almoçava sempre no mesmo canto do restaurante, que ordenava suas coisas na mesa com cuidado, deixava a vista também uma foto de mulher num pequeno porta-retrato improvisado; na parte de trás, um pequeno coração apontava seu significado, acompanhado de palavras indecifráveis. Não perguntei porque já sabia que não voltaria mais.

Queria ter perguntado porém, se assistia fitas de vídeo velhas com seus filhos e apontava aquela mulher da foto, se contava sua história; ou mesmo se tinha filhos ou se fez aqueles vídeos um dia. Queria ter perguntado se sentava sozinho na sala de sua casa, ou na varanda, ou no quarto ao pé da cama, ouvindo o ruído branco da cidade à noite, ou o carro solitário que soava distante, lembrando daquela mulher.

Ela passou por mim

Ela passou por mim. “I eat plants for a living”, dizia a camiseta dela. Gostava de andar sozinha de skate nos fins de tarde. Tinha seus amigos, companheiros embaixo do céu laranja; chegava com eles mas os orbitava distante, não fazia parte daquilo. Também não buscava ninguém, como poderia? Já tinha em si tudo o que precisava.

Eu buscava, perdido no mar. Queria que segurasse minha mão quando caía. Quando fosse frio, agarrasse minha camiseta e se cobrisse de mim. Queria que fosse ela do outro lado do telefone de madrugada. Queria voltar sozinho à noite, depois de deixá-la em casa. Mas dos seus olhos, quem era eu?

Ela passou por mim. A suave brisa rodopiava papéis e folhas pela calçada; seus amigos se foram, um após o outro. Eu fiquei, desajeitado e inseguro, mas queria ter ido embora. Tentei disfarçar, fingi que a ignorava; que medo de não parecer normal. É claro que não funcionou, ela encarava de longe. Qualquer chance morreu naquela olhar.

Houve um beijo então, acho que logo depois. Não sei como chegamos a ele, só sei que aconteceu quando tentamos conversar, desajeitados e inseguros; não era resultado da minha coragem, foi apenas o passo evidente quando não encontramos mais o que dizer. Houve um beijo então, e eu a deixei ir embora, sem falar nada.

Sei que deixou algo em mim. No coração, eu acho, algo que não deixarei escapar.