O carteiro e o demônio

Finalmente encontraram a garotinha, sentada no primeiro degrau da escadaria da capela. Suas armas soaram pesadas, roubando a atenção dela. De olhar ausente, apenas os assistiu discursar. Proclamavam seus crimes, acusavam sua culpa, enfim arrancariam-na da cidade. Tomaram de suas mãos, se já não bastasse a cena bárbara que produziram até então, a pequena boneca que carregava próxima ao peito. Seguiu dali toda sorte de insultos, que me forcei a esquecer. Naquele instante porém, algo mudou na menina.

A rodearam como lobos famintos num inverno longo. Ela se levantou quando um deles finalmente formou coragem e ensaiou apanhá-la; tornou-se a primeira vítima. Caiu, o fez de forma silenciosa enquanto um de seus companheiros ria e o comandava a levantar. Não levantou. O segundo logo estava de joelhos, sangue vertia por todo o rosto. De coragem extirpada diante daquele terror, clamaram por nomes sagrados e ordenaram proteção através de palavras poderosas. Nem mesmo a pequena capela lhes deu ouvido, estavam sob o jugo da garotinha.

Então ela se aproximou de mim. Suor me percorria dos braços às mãos, o ar era denso. Fugir ou lutar renderia o mesmo resultado, apenas aguardei minha sentença. Gosto de pensar que viu algo especial em mim naquele dia, talvez soubesse da minha resistência a participar daquela batida. Retirou o envelope dos meus dedos com cortesia. Ela não ousou abrir a carta diante de mim, apenas seguiu pelos cantos escuros dos becos estreitos que nos cercavam, desaparecendo entre as ruelas da cidade velha.

A charada na porta do quarto

Viviam num pequeno bairro da parte nova da cidade, ainda sem muitos vizinhos. Espaços desocupados garantiam distância suficiente e ofereciam o silêncio tão almejado, quase excessivo. Era apenas ela e o pai dividindo aquela grande casa, mas conviviam bem apesar de se verem pouco. Seu pai sempre parava na porta de seu quarto quando estava de saída, e batia, insistente, persistente, até sua filha ceder e lhe dar alguma forma de resposta. Deixava então uma mensagem num papel qualquer; às vezes eram adivinhas ou charadas até que bem elaboradas, outras eram apenas brincadeiras de que só ele ria; e como ria.

Dessa vez porém, ela estava exausta e se recusou a atender; claro que as batidas continuaram, determinadas a lhe arrancar uma resposta. Reclamou, cansada e irritada, arremessou um travesseiro na porta, que bateu num som opaco e discreto, mas ele não desistiria. Arremessou de novo, pegando a primeira coisa que sua mão alcançou no criado mudo, gritando para seu pai parar. Ele respondeu logo em seguida, soando estranhamente confuso, admitindo apenas que estava ocupado no momento; sua voz vinha do outro lado da casa, e não detrás da porta.

Ela ainda lembra do arrepio que correu pela sua espinha e se alojou no estômago vazio, do coração pulsando forte e resoluto quando se deu conta do que estava acontecendo. Por baixo da porta, um grande envelope amarelo havia sido empurrado, deslizando pelo assoalho polido até o pé da cama. Ela não ousou abrir a carta que estava ali dentro.