O carteiro e o demônio

Finalmente encontraram a garotinha, sentada no primeiro degrau da escadaria da capela. Suas armas soaram pesadas, roubando a atenção dela. De olhar ausente, apenas os assistiu discursar. Proclamavam seus crimes, acusavam sua culpa, enfim arrancariam-na da cidade. Tomaram de suas mãos, se já não bastasse a cena bárbara que produziram até então, a pequena boneca que carregava próxima ao peito. Seguiu dali toda sorte de insultos, que me forcei a esquecer. Naquele instante porém, algo mudou na menina.

A rodearam como lobos famintos num inverno longo. Ela se levantou quando um deles finalmente formou coragem e ensaiou apanhá-la; tornou-se a primeira vítima. Caiu, o fez de forma silenciosa enquanto um de seus companheiros ria e o comandava a levantar. Não levantou. O segundo logo estava de joelhos, sangue vertia por todo o rosto. De coragem extirpada diante daquele terror, clamaram por nomes sagrados e ordenaram proteção através de palavras poderosas. Nem mesmo a pequena capela lhes deu ouvido, estavam sob o jugo da garotinha.

Então ela se aproximou de mim. Suor me percorria dos braços às mãos, o ar era denso. Fugir ou lutar renderia o mesmo resultado, apenas aguardei minha sentença. Gosto de pensar que viu algo especial em mim naquele dia, talvez soubesse da minha resistência a participar daquela batida. Retirou o envelope dos meus dedos com cortesia. Ela não ousou abrir a carta diante de mim, apenas seguiu pelos cantos escuros dos becos estreitos que nos cercavam, desaparecendo entre as ruelas da cidade velha.