As portas que fiquem abertas

Era estranho vê-la debruçada sobre Cássio. Pendulava pesada, para frente e para trás, enquanto entoava seu canto místico. Agia como se tivesse a chave para ele, como se fosse abri-lo para coletar as suas aflições com a delicadeza firme de um especialista. Só atraiu atenção ruim, de gente que a sentenciou de bruxa e apontou dedos. Já sua bruxaria, de nada adiantou. Quanto tempo depois a ambulância chegou? Não houve ressuscitação, nem ensaiaram-na. Levaram o corpo gelado tão depressa quanto chegaram. Rapazes de feição dura eles eram, e duros no tratamento.

Ainda me perguntam porquê deixei fazer toda aquela encenação. Eu era um homem da ciência, como poderia? As portas que fiquem abertas, é o que sempre respondo. Ouvi sua oração quando o fim chegou, e repeti suas palavras e gestos apesar do mundo. Não acreditava naquelas palavras, mas acreditava nela.

Sua chave, no final das contas, tão pesada e rústica, tão difícil de carregar, não tinha fechadura. Mas e a minha, prática e ética, mesmo que desalmada, que trancou Cássio na geladeira do necrotério? Contra os mais exasperados desejos, algumas fechaduras ainda se recusarão a ceder. A porta de alguns corações, a porta de alguns caminhos, sejam eles justos ou longos; as portas que guardam apenas mistério, as portas que levam aos sítios inexplorados. Outras ainda se abrirão contra a minha vontade, e nenhum tipo de mecanismo, por mais primoroso que seja, irá fechá-las; seus mundos se derramarão pelo meu, e eu terei que lidar com isso.

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