As portas que fiquem fechadas

— Que mais eu coloco na história? Tô achando que falta alguma coisa.

— Bota uma bailarina. De preferência a personagem principal ou uma amiga dela.

— Só porque você já fez ballet.

— Não, porque quem nunca fez ballet gosta das nossas histórias.

— Que mais sugere?

— Tem que ter sexo. Sexo com arranhões nas costas, que termina com cheiro de amor e saudade — ela riu enquanto falava — e não ouse separar os dois!

— Separar o casal?

Marina revirou os olhos — separar sexo de amor, tem que fingir que é tudo a mesma coisa — Cássio a encarava, esperando mais, mas ela não tinha. Na verdade tinha, mas não deveria — Olha, tem alguns outros clichês que pode usar, mas é tudo tabu, e se eu te falar você não dura duas semanas. Eu te conheço.

— Tá certo, mas tabu não faz uma boa história? Quero falar do que não se deve, quero lembrar do feio, quero filosofia, horror e conflito. Quero desafiar o leitor.

— Não dá pra ter tudo, querido. A vida já desafia bastante as pessoas, dá algo fácil pra elas.

E Cássio não teve tudo. Passou a tarde debruçado sobre o manuscrito, se preparando para entregá-lo à noitinha. Quando a hora chegou, Marina viu a chave em uma de suas mãos. Ele deu de ombros, sem graça, pois aquela chave tinha um propósito especial; consagrava sua rendição. Não abriria portas ou cofres, não abriria cadeados, mas era com ela que garantia minha entrada, as portas que fiquem fechadas.

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