A charada na porta do quarto

Viviam num pequeno bairro da parte nova da cidade, ainda sem muitos vizinhos. Espaços desocupados garantiam distância suficiente e ofereciam o silêncio tão almejado, quase excessivo. Era apenas ela e o pai dividindo aquela grande casa, mas conviviam bem apesar de se verem pouco. Seu pai sempre parava na porta de seu quarto quando estava de saída, e batia, insistente, persistente, até sua filha ceder e lhe dar alguma forma de resposta. Deixava então uma mensagem num papel qualquer; às vezes eram adivinhas ou charadas até que bem elaboradas, outras eram apenas brincadeiras de que só ele ria; e como ria.

Dessa vez porém, ela estava exausta e se recusou a atender; claro que as batidas continuaram, determinadas a lhe arrancar uma resposta. Reclamou, cansada e irritada, arremessou um travesseiro na porta, que bateu num som opaco e discreto, mas ele não desistiria. Arremessou de novo, pegando a primeira coisa que sua mão alcançou no criado mudo, gritando para seu pai parar. Ele respondeu logo em seguida, soando estranhamente confuso, admitindo apenas que estava ocupado no momento; sua voz vinha do outro lado da casa, e não detrás da porta.

Ela ainda lembra do arrepio que correu pela sua espinha e se alojou no estômago vazio, do coração pulsando forte e resoluto quando se deu conta do que estava acontecendo. Por baixo da porta, um grande envelope amarelo havia sido empurrado, deslizando pelo assoalho polido até o pé da cama. Ela não ousou abrir a carta que estava ali dentro.

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