As portas que fiquem abertas

Era estranho vê-la debruçada sobre Cássio. Pendulava pesada, para frente e para trás, enquanto entoava seu canto místico. Agia como se tivesse a chave para ele, como se fosse abri-lo para coletar as suas aflições com a delicadeza firme de um especialista. Só atraiu atenção ruim, de gente que a sentenciou de bruxa e apontou dedos. Já sua bruxaria, de nada adiantou. Quanto tempo depois a ambulância chegou? Não houve ressuscitação, nem ensaiaram-na. Levaram o corpo gelado tão depressa quanto chegaram. Rapazes de feição dura eles eram, e duros no tratamento.

Ainda me perguntam porquê deixei fazer toda aquela encenação. Eu era um homem da ciência, como poderia? As portas que fiquem abertas, é o que sempre respondo. Ouvi sua oração quando o fim chegou, e repeti suas palavras e gestos apesar do mundo. Não acreditava naquelas palavras, mas acreditava nela.

Sua chave, no final das contas, tão pesada e rústica, tão difícil de carregar, não tinha fechadura. Mas e a minha, prática e ética, mesmo que desalmada, que trancou Cássio na geladeira do necrotério? Contra os mais exasperados desejos, algumas fechaduras ainda se recusarão a ceder. A porta de alguns corações, a porta de alguns caminhos, sejam eles justos ou longos; as portas que guardam apenas mistério, as portas que levam aos sítios inexplorados. Outras ainda se abrirão contra a minha vontade, e nenhum tipo de mecanismo, por mais primoroso que seja, irá fechá-las; seus mundos se derramarão pelo meu, e eu terei que lidar com isso.

As portas que fiquem fechadas

— Que mais eu coloco na história? Tô achando que falta alguma coisa.

— Bota uma bailarina. De preferência a personagem principal ou uma amiga dela.

— Só porque você já fez ballet.

— Não, porque quem nunca fez ballet gosta das nossas histórias.

— Que mais sugere?

— Tem que ter sexo. Sexo com arranhões nas costas, que termina com cheiro de amor e saudade — ela riu enquanto falava — e não ouse separar os dois!

— Separar o casal?

Marina revirou os olhos — separar sexo de amor, tem que fingir que é tudo a mesma coisa — Cássio a encarava, esperando mais, mas ela não tinha. Na verdade tinha, mas não deveria — Olha, tem alguns outros clichês que pode usar, mas é tudo tabu, e se eu te falar você não dura duas semanas. Eu te conheço.

— Tá certo, mas tabu não faz uma boa história? Quero falar do que não se deve, quero lembrar do feio, quero filosofia, horror e conflito. Quero desafiar o leitor.

— Não dá pra ter tudo, querido. A vida já desafia bastante as pessoas, dá algo fácil pra elas.

E Cássio não teve tudo. Passou a tarde debruçado sobre o manuscrito, se preparando para entregá-lo à noitinha. Quando a hora chegou, Marina viu a chave em uma de suas mãos. Ele deu de ombros, sem graça, pois aquela chave tinha um propósito especial; consagrava sua rendição. Não abriria portas ou cofres, não abriria cadeados, mas era com ela que garantia minha entrada, as portas que fiquem fechadas.

O carteiro e o demônio

Finalmente encontraram a garotinha, sentada no primeiro degrau da escadaria da capela. Suas armas soaram pesadas, roubando a atenção dela. De olhar ausente, apenas os assistiu discursar. Proclamavam seus crimes, acusavam sua culpa, enfim arrancariam-na da cidade. Tomaram de suas mãos, se já não bastasse a cena bárbara que produziram até então, a pequena boneca que carregava próxima ao peito. Seguiu dali toda sorte de insultos, que me forcei a esquecer. Naquele instante porém, algo mudou na menina.

A rodearam como lobos famintos num inverno longo. Ela se levantou quando um deles finalmente formou coragem e ensaiou apanhá-la; tornou-se a primeira vítima. Caiu, o fez de forma silenciosa enquanto um de seus companheiros ria e o comandava a levantar. Não levantou. O segundo logo estava de joelhos, sangue vertia por todo o rosto. De coragem extirpada diante daquele terror, clamaram por nomes sagrados e ordenaram proteção através de palavras poderosas. Nem mesmo a pequena capela lhes deu ouvido, estavam sob o jugo da garotinha.

Então ela se aproximou de mim. Suor me percorria dos braços às mãos, o ar era denso. Fugir ou lutar renderia o mesmo resultado, apenas aguardei minha sentença. Gosto de pensar que viu algo especial em mim naquele dia, talvez soubesse da minha resistência a participar daquela batida. Retirou o envelope dos meus dedos com cortesia. Ela não ousou abrir a carta diante de mim, apenas seguiu pelos cantos escuros dos becos estreitos que nos cercavam, desaparecendo entre as ruelas da cidade velha.

A charada na porta do quarto

Viviam num pequeno bairro da parte nova da cidade, ainda sem muitos vizinhos. Espaços desocupados garantiam distância suficiente e ofereciam o silêncio tão almejado, quase excessivo. Era apenas ela e o pai dividindo aquela grande casa, mas conviviam bem apesar de se verem pouco. Seu pai sempre parava na porta de seu quarto quando estava de saída, e batia, insistente, persistente, até sua filha ceder e lhe dar alguma forma de resposta. Deixava então uma mensagem num papel qualquer; às vezes eram adivinhas ou charadas até que bem elaboradas, outras eram apenas brincadeiras de que só ele ria; e como ria.

Dessa vez porém, ela estava exausta e se recusou a atender; claro que as batidas continuaram, determinadas a lhe arrancar uma resposta. Reclamou, cansada e irritada, arremessou um travesseiro na porta, que bateu num som opaco e discreto, mas ele não desistiria. Arremessou de novo, pegando a primeira coisa que sua mão alcançou no criado mudo, gritando para seu pai parar. Ele respondeu logo em seguida, soando estranhamente confuso, admitindo apenas que estava ocupado no momento; sua voz vinha do outro lado da casa, e não detrás da porta.

Ela ainda lembra do arrepio que correu pela sua espinha e se alojou no estômago vazio, do coração pulsando forte e resoluto quando se deu conta do que estava acontecendo. Por baixo da porta, um grande envelope amarelo havia sido empurrado, deslizando pelo assoalho polido até o pé da cama. Ela não ousou abrir a carta que estava ali dentro.

Narrativas de um futuro próximo

book_mockupAcid + Neon é uma antologia com tema cyberpunk idealizada por Coverge e realizada na forma de concurso, onde os participantes selecionados tiveram seus textos publicados num belo livro digital. Meu conto Chuva Sintética é uma das vinte e duas histórias que podem ser lidas em Acid + Neon, baixável em coverge.com.br/acidneon. Além do conteúdo escrito, a antologia inclui também as artes Asia de Deadunlike e Neon Eye de Kremmer, K.K., além da trilha sonora Acidify de Lucas Santos. Você pode também escutar uma lista de temas musicais que te fará sentir o mundo cyberpunk através desse caminho.

A busca por um estilo próprio, onde quer que seja que ele aguarde, me levou a lugares bastante diferentes e experiências intensas e interessantes. Trabalhar no conto Chuva Sintética foi uma dessas experiências, e ver o resultado do trabalho do coletivo Coverge foi a maior delas, que ultrapassou todas as expectativas.