Num canto de restaurante

O velho vinha uma vez por semana, sentava naquele canto, distribuía suas coisas na mesa, toda vez a mesma coisa. Chegava cedo, almoçava devagar, ia embora logo depois. Cumprimentava instintivamente, mas não reduzia a cortesia por isso. Algumas vezes anotava num caderno, concentrado, outras vezes não. Nunca soube se vinha andando ou só estacionava longe, mas virou parte do cenário, como o som da carne na chapa, do espremedor de laranja, dos talheres nos pratos, das conversas e dos copos, dos carros apressados lá fora.

Então, numa semana qualquer, não veio; nem na semana seguinte, e na semana depois daquela. Ninguém perguntou por ele; por falta de interesse ou porque não havia para quem perguntar. Eu também não perguntei, porque já sabia. O velho que almoçava sempre no mesmo canto do restaurante, que ordenava suas coisas na mesa com cuidado, deixava a vista também uma foto de mulher num pequeno porta-retrato improvisado; na parte de trás, um pequeno coração apontava seu significado, acompanhado de palavras indecifráveis. Não perguntei porque já sabia que não voltaria mais.

Queria ter perguntado porém, se assistia fitas de vídeo velhas com seus filhos e apontava aquela mulher da foto, se contava sua história; ou mesmo se tinha filhos ou se fez aqueles vídeos um dia. Queria ter perguntado se sentava sozinho na sala de sua casa, ou na varanda, ou no quarto ao pé da cama, ouvindo o ruído branco da cidade à noite, ou o carro solitário que soava distante, lembrando daquela mulher.

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