Nighttime

Uma despedida.

 

“I haven’t seen you in a while”, the guard said.
I watched as he approached, his thick yellow coat wrinkled here and there with every step.
“How’s the knee?” I asked.
“Better.”
“Good.”
We examined the ruins together from behind the short fence for some time, there was silence until I broke it.
“I wasn’t expecting our walls to be gone. And our roof and our windows and doors.”
“Time does that. Some pillars still stand right there though, you see?” his heavy glove pointing right into the rubble. “Good engineering of yours?”
“No. Those are just made of quality stuff. Hard to find.”
“I see, makes sense. But what now, where are you going to?”
“Somewhere a bit less sunny, maybe.”

Austherus Aynvals

Mantive o formato de diário, dividido em três partes.

 

January the Twentieth, 2014

I was born in a mountain stronghold northeast of Coerthas. It wasn’t the best place for a child to be raised in, but that taught me how hard life can be very soon. The stronghold was called Aynvalsium.
I had no idea about the meaning of that, so the name didn’t ring any bells at the time. It was much later, after leaving my old life behind, that I learned what little I now know about the lineage of which I am part of.

I was taught how to fight and how to survive, how to find food and shelter, and that was all we needed. It hardened me, until I decided it wasn’t enough.
Something inside me wanted to learn more and more, to see the world behind the snowy and cloudy mountains that surrounded our rudimentary walls.
My father did all he could to stop me, saying I should not leave our people behind, but nothing would ever be enough to hold me back.

I left.

 

January the Twenty Sixth, 2014

My travels took me to Ul’dah, where I joined the Thaumaturge’s Guild. All that knowledge waiting before me, ready to be taken, learned and mastered was something I would never ever have dreamed of.
I learned all I could, but of course it was not enough, so I traveled to Gridania. The Conjurers accepted me, and after months of training, it wasn’t enough, again. To Limsa Lominsa them, I said.

After joining the Arcanist’s Guild and learning all they could teach me, I finally discovered something. Not in Limsa, no, but in Coerthas. An old man, walking alone on one of the roads to Whitebrim Front sang something that sparked my interest:

– “From ages old, Aynvalsium hails proud,
all foes once bowed, before the grandeur of our hold.”

Aynvalsium, you said? – I asked. I told him my story, but he didn’t believe much of what I said. As soon as I finished speaking, he told me more:

– Aynvalsium was a great fortress in Coerthas. One of the sturdiest, but no one remembers it anymore. It has vanished before my great-grandfather was born. His father served House Aynvals, and this short song is what was left from their battle hymn. My family still sing it to remind us of where we once came from.

 

February the Second, 2014

With no idea of what to think, I came back to Aynvalsium; the small stronghold I knew as Aynvalsium, to ask my father what all that was about.
My Aynvalsium, just like the one from the old man’s tale, had vanished. Garlemald attacked it and turned everything into dust. They wanted my people to surrender, but we were never taught that, so they fought to the end… and I wasn’t there.

No Guild could tell me anything about the past of my people, only that I had the blood of House Aynvals in my veins.
Without any clue of where to go next, I decided to found a new House Aynvals. As a Free Company, we could recruit the best fighters and mages of Eorzea, and with their help, learn everything we could about my people’s past, and build a future together.

Training with the Marauders has taught me how to protect those I care for, so that the new Free Company will not be touched by the corrupted hands of Garlemald or any other foe.

I am Austherus Aynvals, son of Hagardahn Aynvals, Archduke of House Aynvals.

As portas que fiquem abertas

Era estranho vê-la debruçada sobre Cássio. Pendulava pesada, para frente e para trás, enquanto entoava seu canto místico. Agia como se tivesse a chave para ele, como se fosse abri-lo para coletar as suas aflições com a delicadeza firme de um especialista. Só atraiu atenção ruim, de gente que a sentenciou de bruxa e apontou dedos. Já sua bruxaria, de nada adiantou. Quanto tempo depois a ambulância chegou? Não houve ressuscitação, nem ensaiaram-na. Levaram o corpo gelado tão depressa quanto chegaram. Rapazes de feição dura eles eram, e duros no tratamento.

Ainda me perguntam porquê deixei fazer toda aquela encenação. Eu era um homem da ciência, como poderia? As portas que fiquem abertas, é o que sempre respondo. Ouvi sua oração quando o fim chegou, e repeti suas palavras e gestos apesar do mundo. Não acreditava naquelas palavras, mas acreditava nela.

Sua chave, no final das contas, tão pesada e rústica, tão difícil de carregar, não tinha fechadura. Mas e a minha, prática e ética, mesmo que desalmada, que trancou Cássio na geladeira do necrotério? Contra os mais exasperados desejos, algumas fechaduras ainda se recusarão a ceder. A porta de alguns corações, a porta de alguns caminhos, sejam eles justos ou longos; as portas que guardam apenas mistério, as portas que levam aos sítios inexplorados. Outras ainda se abrirão contra a minha vontade, e nenhum tipo de mecanismo, por mais primoroso que seja, irá fechá-las; seus mundos se derramarão pelo meu, e eu terei que lidar com isso.

As portas que fiquem fechadas

— Que mais eu coloco na história? Tô achando que falta alguma coisa.

— Bota uma bailarina. De preferência a personagem principal ou uma amiga dela.

— Só porque você já fez ballet.

— Não, porque quem nunca fez ballet gosta das nossas histórias.

— Que mais sugere?

— Tem que ter sexo. Sexo com arranhões nas costas, que termina com cheiro de amor e saudade — ela riu enquanto falava — e não ouse separar os dois!

— Separar o casal?

Marina revirou os olhos — separar sexo de amor, tem que fingir que é tudo a mesma coisa — Cássio a encarava, esperando mais, mas ela não tinha. Na verdade tinha, mas não deveria — Olha, tem alguns outros clichês que pode usar, mas é tudo tabu, e se eu te falar você não dura duas semanas. Eu te conheço.

— Tá certo, mas tabu não faz uma boa história? Quero falar do que não se deve, quero lembrar do feio, quero filosofia, horror e conflito. Quero desafiar o leitor.

— Não dá pra ter tudo, querido. A vida já desafia bastante as pessoas, dá algo fácil pra elas.

E Cássio não teve tudo. Passou a tarde debruçado sobre o manuscrito, se preparando para entregá-lo à noitinha. Quando a hora chegou, Marina viu a chave em uma de suas mãos. Ele deu de ombros, sem graça, pois aquela chave tinha um propósito especial; consagrava sua rendição. Não abriria portas ou cofres, não abriria cadeados, mas era com ela que garantia minha entrada, as portas que fiquem fechadas.

O carteiro e o demônio

Finalmente encontraram a garotinha, sentada no primeiro degrau da escadaria da capela. Suas armas soaram pesadas, roubando a atenção dela. De olhar ausente, apenas os assistiu discursar. Proclamavam seus crimes, acusavam sua culpa, enfim arrancariam-na da cidade. Tomaram de suas mãos, se já não bastasse a cena bárbara que produziram até então, a pequena boneca que carregava próxima ao peito. Seguiu dali toda sorte de insultos, que me forcei a esquecer. Naquele instante porém, algo mudou na menina.

A rodearam como lobos famintos num inverno longo. Ela se levantou quando um deles finalmente formou coragem e ensaiou apanhá-la; tornou-se a primeira vítima. Caiu, o fez de forma silenciosa enquanto um de seus companheiros ria e o comandava a levantar. Não levantou. O segundo logo estava de joelhos, sangue vertia por todo o rosto. De coragem extirpada diante daquele terror, clamaram por nomes sagrados e ordenaram proteção através de palavras poderosas. Nem mesmo a pequena capela lhes deu ouvido, estavam sob o jugo da garotinha.

Então ela se aproximou de mim. Suor me percorria dos braços às mãos, o ar era denso. Fugir ou lutar renderia o mesmo resultado, apenas aguardei minha sentença. Gosto de pensar que viu algo especial em mim naquele dia, talvez soubesse da minha resistência a participar daquela batida. Retirou o envelope dos meus dedos com cortesia. Ela não ousou abrir a carta diante de mim, apenas seguiu pelos cantos escuros dos becos estreitos que nos cercavam, desaparecendo entre as ruelas da cidade velha.

A charada na porta do quarto

Viviam num pequeno bairro da parte nova da cidade, ainda sem muitos vizinhos. Espaços desocupados garantiam distância suficiente e ofereciam o silêncio tão almejado, quase excessivo. Era apenas ela e o pai dividindo aquela grande casa, mas conviviam bem apesar de se verem pouco. Seu pai sempre parava na porta de seu quarto quando estava de saída, e batia, insistente, persistente, até sua filha ceder e lhe dar alguma forma de resposta. Deixava então uma mensagem num papel qualquer; às vezes eram adivinhas ou charadas até que bem elaboradas, outras eram apenas brincadeiras de que só ele ria; e como ria.

Dessa vez porém, ela estava exausta e se recusou a atender; claro que as batidas continuaram, determinadas a lhe arrancar uma resposta. Reclamou, cansada e irritada, arremessou um travesseiro na porta, que bateu num som opaco e discreto, mas ele não desistiria. Arremessou de novo, pegando a primeira coisa que sua mão alcançou no criado mudo, gritando para seu pai parar. Ele respondeu logo em seguida, soando estranhamente confuso, admitindo apenas que estava ocupado no momento; sua voz vinha do outro lado da casa, e não detrás da porta.

Ela ainda lembra do arrepio que correu pela sua espinha e se alojou no estômago vazio, do coração pulsando forte e resoluto quando se deu conta do que estava acontecendo. Por baixo da porta, um grande envelope amarelo havia sido empurrado, deslizando pelo assoalho polido até o pé da cama. Ela não ousou abrir a carta que estava ali dentro.

Narrativas de um futuro próximo

book_mockupAcid + Neon é uma antologia com tema cyberpunk idealizada por Coverge e realizada na forma de concurso, onde os participantes selecionados tiveram seus textos publicados num belo livro digital. Meu conto Chuva Sintética é uma das vinte e duas histórias que podem ser lidas em Acid + Neon, baixável em coverge.com.br/acidneon. Além do conteúdo escrito, a antologia inclui também as artes Asia de Deadunlike e Neon Eye de Kremmer, K.K., além da trilha sonora Acidify de Lucas Santos. Você pode também escutar uma lista de temas musicais que te fará sentir o mundo cyberpunk através desse caminho.

A busca por um estilo próprio, onde quer que seja que ele aguarde, me levou a lugares bastante diferentes e experiências intensas e interessantes. Trabalhar no conto Chuva Sintética foi uma dessas experiências, e ver o resultado do trabalho do coletivo Coverge foi a maior delas, que ultrapassou todas as expectativas.

Num canto de restaurante

O velho vinha uma vez por semana, sentava naquele canto, distribuía suas coisas na mesa, toda vez a mesma coisa. Chegava cedo, almoçava devagar, ia embora logo depois. Cumprimentava instintivamente, mas não reduzia a cortesia por isso. Algumas vezes anotava num caderno, concentrado, outras vezes não. Nunca soube se vinha andando ou só estacionava longe, mas virou parte do cenário, como o som da carne na chapa, do espremedor de laranja, dos talheres nos pratos, das conversas e dos copos, dos carros apressados lá fora.

Então, numa semana qualquer, não veio; nem na semana seguinte, e na semana depois daquela. Ninguém perguntou por ele; por falta de interesse ou porque não havia para quem perguntar. Eu também não perguntei, porque já sabia. O velho que almoçava sempre no mesmo canto do restaurante, que ordenava suas coisas na mesa com cuidado, deixava a vista também uma foto de mulher num pequeno porta-retrato improvisado; na parte de trás, um pequeno coração apontava seu significado, acompanhado de palavras indecifráveis. Não perguntei porque já sabia que não voltaria mais.

Queria ter perguntado porém, se assistia fitas de vídeo velhas com seus filhos e apontava aquela mulher da foto, se contava sua história; ou mesmo se tinha filhos ou se fez aqueles vídeos um dia. Queria ter perguntado se sentava sozinho na sala de sua casa, ou na varanda, ou no quarto ao pé da cama, ouvindo o ruído branco da cidade à noite, ou o carro solitário que soava distante, lembrando daquela mulher.

Ela passou por mim

Ela passou por mim. “I eat plants for a living”, dizia a camiseta dela. Gostava de andar sozinha de skate nos fins de tarde. Tinha seus amigos, companheiros embaixo do céu laranja; chegava com eles mas os orbitava distante, não fazia parte daquilo. Também não buscava ninguém, como poderia? Já tinha em si tudo o que precisava.

Eu buscava, perdido no mar. Queria que segurasse minha mão quando caía. Quando fosse frio, agarrasse minha camiseta e se cobrisse de mim. Queria que fosse ela do outro lado do telefone de madrugada. Queria voltar sozinho à noite, depois de deixá-la em casa. Mas dos seus olhos, quem era eu?

Ela passou por mim. A suave brisa rodopiava papéis e folhas pela calçada; seus amigos se foram, um após o outro. Eu fiquei, desajeitado e inseguro, mas queria ter ido embora. Tentei disfarçar, fingi que a ignorava; que medo de não parecer normal. É claro que não funcionou, ela encarava de longe. Qualquer chance morreu naquela olhar.

Houve um beijo então, acho que logo depois. Não sei como chegamos a ele, só sei que aconteceu quando tentamos conversar, desajeitados e inseguros; não era resultado da minha coragem, foi apenas o passo evidente quando não encontramos mais o que dizer. Houve um beijo então, e eu a deixei ir embora, sem falar nada.

Sei que deixou algo em mim. No coração, eu acho, algo que não deixarei escapar.